ESG ou GSE? A importância da Governança Corporativa na pauta ESG

Nos últimos 2 anos o enquadramento das empresas na pauta Environmental, Social, Governance – ESG, tornou-se prioridade da alta gestão. Dia após dia observamos a temática ganhar grandes proporções no que se refere ao envolvimento do mundo corporativo em assuntos que atingem a coletividade.


A questão ambiental tem dominado sobremaneira a pauta em espaços como ONU, Fórum Econômico Mundial, encontros de cúpula entre países, entre outros, ante o esgotamento de recursos naturais, alteração no clima do planeta, grandes fenômenos e catástrofes naturais.


A pandemia do COVID-19 também fortaleceu as reflexões acerca da importância do papel social das empresas em processos de empobrecimento da população, envolvimento em questões relativas à geração de renda e contribuição com as vulnerabilidades sociais.


Grandes fundos do mercado financeiro ao redor do mundo têm voltado sua atenção a investimentos que observem a pauta ESG, garantindo que os empreendimentos sejam ambientalmente sustentáveis e socialmente justos. A Bloomberg Intelligence e a Global Sustainable Inventment Alliance [1] recentemente estimaram que o investimento em ativos ESG deve atingir US$ 41 trilhões até o final de 2022, mais de US$ 50 trilhões em 2025 e, em 2026, superarão US$ 60 trilhões.


Por tais razões, existe hoje uma corrida desenfreada na tentativa das empresas serem consideradas ESG. Tal atropelamento pode gerar resultados nem sempre interessantes aos objetivos empresariais: 1-) o aporte de recursos em projetos e programas que não gerarão impacto socioambiental e, por consequência, o objetivo em ser uma empresa enquadrada como ESG não será atingido; 2-) tentativa de empresas de simular o atendimento a princípios e valores ESG, abrindo espaço para a prática de greenwashing, entre outros.


Na referida corrida contra o relógio, verifica-se que muitas corporações se atentam para Enviromental (E), para Social (S) e acabam deixando de lado aspecto fundamental, que é Governance (G).


Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) [2], Governança Corporativa é o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle, e demais partes interessadas.


Governança Corporativa é fundamental na condução da gestão de qualquer empresa, não importando o seu porte. É através de uma boa governança que as “regras do jogo” empresarial são estabelecidas, ou seja, qual é o foco de atuação, como estabelecer e alcançar objetivos, quem dita a forma de atuação, quais são as formas de controle e de transparência na atuação de cada departamento ou colaborador, qual é a hierarquia da empresa, quem se responsabiliza e qual é o limite para tomada de decisões, quais são as práticas condutoras do relacionamento entre os colaboradores, quais são os canais de apuração de eventuais desvios, como se dá o relacionamento entre os sócios, acionistas e investidores, entre outros.


Diferentemente do primeiro setor (governo) e terceiro setor (organizações sem finalidade lucrativa), as empresas (segundo setor) são criadas e existem para gerar lucro aos seus proprietários, sócios ou acionistas. Tal conceito, segundo renomados economistas, também se aplica ao seu envolvimento com causas socioambientais. Neste sentido, Milton Friedman [3], um dos grandes expoentes do liberalismo econômico, afirmou que responsabilidade social é aquela que responde às expectativas de seus acionistas. Desta forma, sendo a Governança Corporativa um sistema que se aplica ao objetivo precípuo das empresas, ou seja, a busca pelo lucro, também é imprescindível na prática ESG.


A Governança Corporativa traduz, além de um conjunto de princípios norteadores da atuação interna e externa, a própria cultura da empresa, ou seja, sua missão, visão, valores, crenças, entre outros. É atribuída a Peter Drucker [4] a celebre frase “Culture eats strategy for breakfast”, ou seja, a cultura devora a estratégia no café da manhã.


No caso das políticas ESG tal reflexão é ainda mais latente, já que uma estratégia bem desenhada de envolvimento com causas socioambientais será apenas um bom planejamento ou belo documento se não for desenvolvida com o consentimento da alta gestão, ou seja, “de cima para baixo”.


Corroborando tal entendimento, Luther Johnson afirmou que “não importa o quão longe a visão do líder alcance e nem quão brilhante seja a estratégia, nenhuma das duas será realizada se não tiver o suporte da cultura da organização.”[5]


Alguns impactos importantes de uma boa Governança Corporativa aplicada à política ESG, utilizando-se os princípios básicos de governança corporativa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa [6]:


• Transparência: como se dá a escolha de projetos a serem executados e apoiados, quais são os valores que serão investidos, qual a relação entre receitas da empresa e as despesas com projetos socioambientais;

• Equidade: tratamento isonômico e justo entre todos os projetos apoiados, considerando aí seus beneficiários ou stakeholders para consecução das finalidades pretendidas, como parceiros, governo, entre outros;

• Prestação de Contas: demonstrar de forma evidente os resultados atingidos pelas ações socioambientais, sem manipulação de dados;

• Responsabilidade Corporativa: todos os compromissos socioambientais devem ser cumpridos, não havendo espaço para descontinuidade de ações devido a problemas operacionais e orçamentários.


Política ESG, para ser efetiva, obrigatoriamente precisa estar inserida na cultura da empresa. Somente uma Governança Corporativa bem desenhada será capaz de gerar estratégia que resulte na geração de cadeia de resultados que as empresas tanto almejam com o envolvimento na pauta socioambiental.


Sendo o G (Governança) tão fundamental, fica a pergunta: devemos continuar falando em ESG ou passar a chamar de GSE?

 

Gustavo Gois é advogado especializado no Terceiro Setor e consultor na área de sustentabilidade empresarial há mais de 20 anos. Atua em organizações da sociedade civil de médio e grande porte, além de empresas que desejam adequar sua atuação à agenda ESG.

 

[1] https://www.bloomberg.com/news/articles/2022-02-03/esg-by-the-numbers-sustainable-investing-set-records-in-2021


[2] https://conhecimento.ibgc.org.br/Paginas/Publicacao.aspx?PubId=21138


[3] FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e Liberdade. São Paulo: Arte Nova, 1977.

[4] Um dos mais conhecidos e influentes pensadores e escritores na teoria e prática do

gerenciamento do século XX.


[5] www.relationaldynamicsinstitute.com/ (último acesso em 28 de março de 2013),

postado por lutherjohnson em Culture Applications.


[6] https://www.ibgc.org.br/blog/principios-de-governanca-corporativa