A difícil tarefa de ser honesto num país de desonestos

Por Josenir Teixeira


É do folclore político (ou foi real?): dizem que Getúlio Vargas nomeou um amigo para cuidar da Alfândega carioca e o avisou: quando quiserem corromper você, me avise. Meses depois, ele recebeu uma carta: “Presidente, por favor, me demita urgentemente: os homens estão chegando no meu preço.”

Advogado afirmou em rede nacional que se o empresário não fizer “composição ilícita com algum político para pagar alguma coisa, não tem obra” e exemplificou: “Pode pegar uma prefeitura do interior, uma empreiterinha com quatro funcionários. Se ele não fizer acerto, ele não põe um paralelepípedo no chão”. Ele foi muito criticado e autoridades vieram a público “desmistificar” a sua afirmação. Tenta-se ludibriar a opinião pública e passar a imagem de que os brasileiros são puros e que aquilo sugerido não aconteceria. Acontece. Cidadãos foram entrevistados e também censuraram a fala do advogado no que diz respeito a seu conteúdo, mas silenciaram quanto à sua casuística. Aliás, afirmou-se, acertadamente: “O certo é certo mesmo que ninguém esteja fazendo e o errado é errado mesmo que todo mundo esteja fazendo.”

A burocracia, que deveria “proteger” o Estado da corrupção, é utilizada justamente para favorecê-la e atrapalhar a vida do cidadão, o que permite a vagabundos vender facilidades para o seu contorno.

A mídia nos mostra diariamente o bacanal que é feito com o dinheiro público. E em todas as áreas. Um dos delatores do esquema que envolve uma petroleira brasileira (qual?) afirmou que “os esquemas de corrupção se espalham no Brasil inteiro”, inclusive “nas rodovias, nas ferrovias, nos portos, nos aeroportos e nas hidrelétricas. É só pesquisar.” Devemos incluir outro setor de atividade nessa lista: os hospitais. É só pesquisar.

Infelizmente, até na área da saúde, tão cara e primordial ao cidadão, recursos são desviados para os bolsos de parasitas travestidas de seres humanos que estrategicamente são alçadas à categoria de autoridades e na mão de quem se coloca uma caneta apta a cometer os crimes sobre os quais somos informados rotineiramente. É pena.

O cotidiano mostra a prática de “pequenos crimes” aparentemente de menor potencial ofensivo, mas que revelam a postura sabotadora da honestidade, dos bons costumes, da boa-fé e de outros valores morais despudoradamente colocados à margem em prol de interesses individuais mesquinhos e imediatos. O taxista e o garçom que perguntam “de quanto você quer a nota?” são exemplos disso. E quando o cidadão aceita a inclusão de alguns reais a mais na nota fiscal, além do devido, o processo da corrupção se conclui e contribui de maneira efetiva e desastrosa para a promoção das inacreditáveis não conformidades constatadas e vivenciadas. É pena.

O pedido ou o oferecimento de propina, e o pagamento dela, para qualquer finalidade, mediante qualquer “justificativa” ou argumento, fecha odioso e vicioso ciclo que em absolutamente nada contribui para nos fazer melhores. Além de ser crime, essa postura enoja e deveria ser execrada publicamente pelos cidadãos de bem, que, ao revés, se recolhem comodamente aos seus mundos particulares e esperam que outros façam as suas vezes. Está provado que (só) isso não dá certo. E assim continuará a caminhar a humanidade se nós mesmos, todos, não adotarmos atitudes eficazes para mudar a situação que parece ser a “normal”. Não é. Devemos agir, denunciar, expor e execrar os vadios achacadores dos cofres públicos e contribuir para que eles sejam colocados atrás das grades, além de escrever seus nomes no rol dos culpados para que toda a sociedade os reconheça e também os defenestre do seu seio.

Os cidadãos de bem são em muito maior número do que os bandidos abjetos. Mas sucumbem, desgraçadamente, por algum motivo ainda inexplicável. Ou muito bem explicável, do ponto de vista histórico, se se analisar a (má) formação da sociedade brasileira surgida a partir de 1808. É de dar dó. Aqui cabe um ditado popular desafiador: “pau que nasce torto nunca se endireita?”

E a esperança? Esta se volta à evolução natural da espécie humana e repousa no jovem. E como nossos jovens estão sendo formados intelectual e moralmente para administrar e viver o Brasil de hoje e o de amanhã? Para dizer o mínimo, e encerrar por aqui, eu diria que essa preparação está deixando muito, muito a desejar, pois “Segundo o Instituto Ayrton Senna, 40% dos estudantes brasileiros concluem o ensino fundamental sem conseguir interpretar textos e 37% deles têm problemas com operações matemáticas simples.” É lamentável! Que Deus nos ajude!

Publicado no boletim Conexão Saúde n. 7, jan/fev/2015, p. 11, INDSH – Instituto Nacional de Desenvolvimento Social e Humano


Advogado, Mestre em direito e autor. Possui especialização em direito do Terceiro Setor. Vice-Presidente do Instituto Brasileiro de Advogados do Terceiro Setor/IBATS e Fundador e Diretor da Revista de Direito do Terceiro Setor – RDTS

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