A caminhada ainda é longa, mas as mulheres já são mais presentes na filantropia

Por Paula Fabiani


Iniciei minha carreira no setor financeiro, mas sempre tive uma inquietude em relação às desigualdades e injustiças ao meu redor. Essa inquietude cresceu com o passar do tempo e em 2006 decidi fazer processo de transição de carreira e colocar meus talentos à disposição de causas. O setor financeiro não é acolhedor para mulheres e imaginei que no terceiro setor encontraria um ambiente muito mais igualitário.


Para minha surpresa, apesar do setor ter mais mulheres de uma maneira geral, encontrei poucas em cargos de liderança e conselhos de organizações da sociedade civil. A filantropia ainda era pouco liderada por mulheres. O que, de certa forma, não deixava de refletir o que se via na sociedade e mercado de trabalho em relação a cargos de liderança e conselhos de uma maneira geral.


Acredito que essa cultura vem mudando e, com ela, os impactos na sociedade como a conhecemos. No fim do ano passado, o The New York Times publicou o artigo “Breaking Up the Philanthropy Boys Club” discutindo justamente esse assunto. A jornalista Emma Goldberg pontua no texto que, mesmo em meio a uma crise econômica em 2021, houve um boom de doações para a equidade de gênero. Três grandes nomes de mulheres da filantropia mundial, MacKenzie Scott, Melinda French Gates e Lynn Schusterman se uniram para doar US$40 milhões para iniciativas que promovem a causa.


O artigo me fez pensar sobre minha história com o terceiro setor e a filantropia, e o que temos visto em nosso país. Acredito que quando pensamos em filantropia e terceiro setor, o que deveria imediatamente vir à mente é a colaboração para resolver questões sociais enraizadas em nossa cultura, como as questões de gênero. A Luiza Trajano, um dos grandes nomes da filantropia e empresariado brasileiro, disse em uma entrevista sobre filantropia para a Forbes que "Você só estará bem se o outro também estiver". Acho que é possível que todos olhem para a equidade de gênero também dessa forma. Compreendendo que a questão precisa ser vista tanto por quem trabalha e faz o terceiro setor girar, quanto pelas causas que se pretende resolver por meio dele.


De acordo com o senso GIFE de 2020, atualmente os conselhos de Institutos, Fundações e Fundos Filantrópicos contam com 32% de conselheiras mulheres em seus quadros. A boa notícia é que este número cresceu, em 2018 era 27%. Ainda assim, o total de conselheiros homens ainda é bastante superior, representando 68%. E esta é apenas uma forma de analisar essa composição. O relatório demonstra, ainda, que apesar de avanços relevantes nos últimos anos na agenda de gênero, de maneira geral as organizações de ISP (Investimento Social Privado) ainda têm conselhos deliberativos pouco diversos e representativos em relação à estrutura social e demográfica brasileira.


O cenário certamente é diferente (e melhor) se comparado ao início da minha trajetória lá em 2006, mas o caminho segue longo pela frente.


Acredito que quando mulheres encontram protagonismo em ações geradoras de impacto e em resoluções de questões sociais, além de colocarmos a mulher à frente como solucionadora de problemas, também permitimos que causas associadas a equidade de gênero sejam pensadas por quem as vive no dia a dia. Ou seja, por nós mulheres. Mas precisamos dos conselheiros homens para mudar esta realidade. Que cada vez mais eles se engajem nesta jornada!